Era o espetáculo do linchamento — uma prática sistemática, legitimada socialmente, que transformou a dor negra em ritual público.. Era o espetáculo do linchamento — uma prática sistemática, legitimada socialmente, que transformou a dor negra em ritual público. Mais do que execuções extrajudiciais, os linchamentos formaram uma engrenagem de controle racial com requintes de crueldade, propaganda e participação coletiva. O linchamento de Robert McDaniels e Roosevelt Townes em 1937, em Duck Hill, Mississippi, é um exemplo terrível da brutalidade que marcou a era Jim Crow nos Estados Unidos.

O processo legal tem um limite. O sociólogo José de Souza Martins, em seu estudo sobre os linchamentos no Brasil, nos lembra que o linchamento não é um fenômeno novo. É, ao contrário, um resquício dos tempos primitivos, quando a justiça era exercida na praça pública e não nos tribunais togados. Em 30 casos, desses 50 linchamentos, o crime supostamente cometido pelo linchado era de furto ou roubo (60%); em dez casos, o crime suposto era de estupro; em quatro, agressão; em três, assas-sinato; em dois, crime de trânsito; e em um, o suposto crime envolvia bruxaria (D'AGOSTINO et al, 2014). Este foi o único linchamento de mulher. Segundo ele, essa demora em tipificar o linchamento como crime não é um mero acaso - e há fortes componentes raciais nisso. "O número de linchamentos nos EUA, começando por volta da década de 1880, 1890, era de quase um a cada dois dias, basicamente de afro-americanos. Era o que eles chamavam de Flagelo do Sul", diz.